Quarta-feira, Julho 12, 2006

Um êrro Histórico

Em causa está o projecto de instalação de uma grande plataforma logística no norte do concelho de Vila Franca de Xira, que irá ocupar uma vasta área da Reserva Agrícola Nacional (cerca de 100 hectares).


Um êrro estratégico, pelo facto da "logística" não criar emprego, e, bem antes pelo contrário, apenas fazer nascer novas formas de colocação na Europa de produtos fabricados em Países onde a mão de obra é usada e abusada chegando nalguns casos a aproximar-se da pura escravatura, o que, a breve significará apenas a agonia da nossa Agricultura e da Industria.


Um êrro urbanístico, com mais uma fonte de agravamento do caos na circulação viária, devido à clara sobrecarga que tal estrutura irá ter, na já tão sacrificada zona da Grande Lisboa, com o aumento da poluição, e ainda com a diminuição de fontes de renovação do ar, para já não falar da total ausência de estudo de impacte ambiental.


Por outro lado, o panorama político mundial leva-nos a ter muitas cautelas com as nossas fontes de alimento, e, o desbaratar por completo dos nossos melhores solos agrícolas, trocando-os pela simples construção de prédios e de armazéns, poderá hipotecar sériamente no futuro, uma solução de recurso que ainda estava ao alcance de Portugal, numa eventual época de crise.


As terras do Vale do Tejo, são terras de aluvião, que, por natureza são muito férteis, sendo já tal fertilidade, ancestral, relatada por muitos historiadores como sempre tendo sido terras de abundância, cujas referências remontam aos povoados do Calcolítico, que aí existíam. Mais recentemente existe o registo de que, os habitantes do interior do País organizavam frequentes expedições de saque a esta zona, justamente, pela abundância que esta evidênciava, Viriato, Cauceno e Púnico lideraram muitas delas. Por sua vez, o cronista árabe, Al Idrisi, referindo-se à região de Balãta, (zona da Extremadura e Vale do Tejo), na qual se incluía a actual "Lisboa", dizia “que o trigo semeado não fica na terra mais de 40 dias, podendo ser colhido depois deles” e “que uma medida rende cem, aproximadamente”. Estes locais eram famosos em todo o Al Andaluz pela qualidade e tamanho da sua fruta, dizendo-se ainda “que o chão é são e as pessoas vivem muito velhas”, fazendo alusão à grande qualidade de vida então vigente neste local.


Assistimos com o passar do tempo à limitação absurda das nossas fontes de alimento, com a inutilização dos solos férteis, por betão armado, limitando-se com isso a nossa subsistência futura, obrigando-nos, num futuro próximo a ficar cada vez mais dependentes do exterior, até no mais simples e básico.
Também em causa está o logro de que tal investimento traría milhares de empregos para a zona, quando sabemos que o sector da logística, pela sua própria natureza, é o que menos força de trabalho emprega, pois um simples elemento pode controlar uns milhares de m2 de um simples armazém.

Por conseguinte, temos na frente mais um êrro de clara dimensão histórica, pois decisões destas são incrivelmente tomadas por quem não sabe ler o passado, nem tão pouco pretende olhar para o futuro.



posted by José Pedro Gil at 13:10